Meu pai tem 84 anos e é alcoólatra. Desde criança lido com isso e, depois de adulta, já o levei a diversos médicos para tentar combater essa doença, mas não houve resultado. Já saí do trabalho algumas vezes para socorrê-lo e levá-lo às pressas para o hospital por causa do alcoolismo. Ele já caiu bêbado na rua e em casa algumas vezes e já quebrou alguns ossos: ombro, cotovelo, dedo das mãos, costela... Já briguei, gritei, chorei, implorei, conversei... nada deu certo. Por isso, hoje fazemos acordos. Ele bebe um pouco todos os dias, mas precisa se alimentar, precisa me ajudar cuidando de si mesmo para que eu possa estudar, trabalhar e cuidar dele também.
A única distração que ele tem é ir ao bar, ver os amigos... vai e volta várias vezes ao dia... nos intervalos, dorme e vê TV. As idas ao bar se tornaram pequenos momentos de felicidade na sua rotina. Como quase não paro em casa, não me sinto no direito nem com forças para tirar isso dele, por isso acabei cedendo, desistindo de lutar contra e optando por fazer acordos, embora nem sempre ele os cumpra.
Bem.. desde que começou o distanciamento social obrigatório, eu o proibi de sair e tenho comprado a bebida dele para conseguir controlá-lo, já que quando não bebe ele fica muito nervoso. Ontem eu comprei duas garrafas de rum. De ontem para hoje ele praticamente acabou com uma garrafa, então eu fui conversar com ele, pedir para pegar mais leve. Ele abaixou a cabeça triste e disse: Eu tô nervoso, Thaís. Não aguento mais ficar preso dentro de casa... nesse quarto.
Eu fiquei sem palavras. Depois disso, o que eu poderia dizer para ele? Eu também estou nervosa e triste com toda essa situação a que estamos submetidos. Fiquei pensando na atenção que estou dispensando a ele... no tempo que lhe estou dedicando nos intervalos entre gravar aula, fazer faxina, fazer comida, ficar desesperada com as notícias e tentar não surtar. Realmente ele tem passado muito tempo sozinho. Mas o que eu posso fazer? E que forças eu tenho para fazer algo agora?
Me lembrei da fala do novo ministro da saúde sobre o gasto de dinheiro público com idosos (Para bom entendedor... Para que tentar salvar idosos?). Me lembrei também da minha tia evangélica dizendo que eu estou matando meu pai aos poucos com álcool. Meus olhos se encheram de lágrimas, então olhei pra ele, que ainda se encontrava de cabeça baixa, e disse: Tá bem, pai. Vou colocar uma cerveja na geladeira para a gente tomar no jantar.
Entre, puxe uma cadeira, se aconchegue e tome um café. Ou um vinho, se preferir. Fique se quiser. Parta se não gostar. O espaço aqui é reservado para (se) desassossegar.
sexta-feira, 17 de abril de 2020
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
Dia dos professores 15/10/2017
Eu tentei. Eu juro que tentei resistir ao desejo de escrever algo sobre o dia de hoje. Mas acabou sendo mais forte do que eu. Então, vamos lá.
Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que não escolhi ser professora, pelo menos não conscientemente. Eu fui escolhida. Na minha adolescência, pensei em administração, direito, jornalismo... mas o magistério nunca foi algo dito por mim. Porém, estudando em colégio público e sem grana para pagar um cursinho, tive de fazer um cálculo quase matemático. Eu gostava de estudar, sempre acreditei que eu era capaz de fazer tudo o que quisesse, só precisava de oportunidade, e a oportunidade - eu também sabia - só viria por meio da educação.
Ser uma das melhores alunas do meu colégio, ter as melhores notas, gostar de estudar todas as matérias e de ensiná-las (!!!) aos meus colegas não me garantiu, na corrida injusta do vestibular, nota para o curso de Comunicação Social. O cálculo, então, foi o que me levou a escolher o curso de Letras, ainda sem pensar no magistério. Afinal, qual era a matéria em que eu tinha maior facilidade? Qual o curso que seria mais próximo da Comunicação social? Além do mais, eu havia descoberto, ainda que tardiamente, o prazer pela leitura, então não tinha o que perder em tentar.
Escolhi o curso de Letras e na primeira semana estava apaixonada, mas ainda não pensava em ser professora. Na verdade, houve um tempo em que eu até tive pânico de sala de aula. A solicitação de transferência de curso, porém, nunca foi feita. Com o passar dos anos, veio a descoberta de uma vocação que eu não havia imaginado, embora parecesse óbvia para alguns. Minha mãe recentemente me disse (me lembrou?) que, desde pequena, eu queria ser professora: - Você dava aula para tudo - ela disse -, para bonecas, para as crianças do prédio e até para as paredes.
De fato, lembro que ganhei quando criança uma lousa de presente do meu pai por causa disso. Bem, mas, se essa vocação se colocou desde tão cedo, por que eu nunca pensara nela como uma possibilidade? Talvez porque já naquela época ser professor não estava associado a ser bem-sucedido, talvez porque eu acreditava que o céu era o limite e o magistério me prenderia ao chão.
Esse, contudo, não é o relato de uma pessoa frustrada, que se tornou professora por falta de opção. Esse é o relato de alguém que, como eu disse, foi escolhido para seguir essa carreira. Todos no mundo têm uma missão e eu estou convencida de que essa é a minha. Visão utópica? Romântica? Eu sei - e como sei - que a rotina é árdua, cansativa, que exige dedicação e abdicação. Muitas vezes a desmotivação e o desânimo, devido à falta de valorização e reconhecimento por parte do governo, das escolas, dos alunos e dos pais, leva muitos a desistir, alguns antes mesmo de começar. Eu sinto e passo por tudo isso todos os dias. Tudo isso me abala e muito. Há, no entanto, algo que me faz continuar e acreditar: alguns alunos. É, não são todos, infelizmente. Mas não dá para mudar o mundo todo de uma vez ou sozinha.
Como professora, mais do que transmitir conteúdos e vender modelos, eu busco plantar sementes. Sementes que eu espero que um dia germinem, cresçam e plantem outras sementes. São esses alunos que me ajudam a manter a chama acesa. É por eles que sigo em frente tentando fazer o meu melhor, tentando ser uma pessoa melhor, a melhor pessoa que posso ser. O dia de hoje, então, sem esses alunos, não faria sentido. Sem eles, eu não seria professora (existem professores sem alunos?). A eles dedico esta crônica e agradeço por tudo o que, mesmo sem saberem, me ensinaram.
Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que não escolhi ser professora, pelo menos não conscientemente. Eu fui escolhida. Na minha adolescência, pensei em administração, direito, jornalismo... mas o magistério nunca foi algo dito por mim. Porém, estudando em colégio público e sem grana para pagar um cursinho, tive de fazer um cálculo quase matemático. Eu gostava de estudar, sempre acreditei que eu era capaz de fazer tudo o que quisesse, só precisava de oportunidade, e a oportunidade - eu também sabia - só viria por meio da educação.
Ser uma das melhores alunas do meu colégio, ter as melhores notas, gostar de estudar todas as matérias e de ensiná-las (!!!) aos meus colegas não me garantiu, na corrida injusta do vestibular, nota para o curso de Comunicação Social. O cálculo, então, foi o que me levou a escolher o curso de Letras, ainda sem pensar no magistério. Afinal, qual era a matéria em que eu tinha maior facilidade? Qual o curso que seria mais próximo da Comunicação social? Além do mais, eu havia descoberto, ainda que tardiamente, o prazer pela leitura, então não tinha o que perder em tentar.
Escolhi o curso de Letras e na primeira semana estava apaixonada, mas ainda não pensava em ser professora. Na verdade, houve um tempo em que eu até tive pânico de sala de aula. A solicitação de transferência de curso, porém, nunca foi feita. Com o passar dos anos, veio a descoberta de uma vocação que eu não havia imaginado, embora parecesse óbvia para alguns. Minha mãe recentemente me disse (me lembrou?) que, desde pequena, eu queria ser professora: - Você dava aula para tudo - ela disse -, para bonecas, para as crianças do prédio e até para as paredes.
De fato, lembro que ganhei quando criança uma lousa de presente do meu pai por causa disso. Bem, mas, se essa vocação se colocou desde tão cedo, por que eu nunca pensara nela como uma possibilidade? Talvez porque já naquela época ser professor não estava associado a ser bem-sucedido, talvez porque eu acreditava que o céu era o limite e o magistério me prenderia ao chão.
Esse, contudo, não é o relato de uma pessoa frustrada, que se tornou professora por falta de opção. Esse é o relato de alguém que, como eu disse, foi escolhido para seguir essa carreira. Todos no mundo têm uma missão e eu estou convencida de que essa é a minha. Visão utópica? Romântica? Eu sei - e como sei - que a rotina é árdua, cansativa, que exige dedicação e abdicação. Muitas vezes a desmotivação e o desânimo, devido à falta de valorização e reconhecimento por parte do governo, das escolas, dos alunos e dos pais, leva muitos a desistir, alguns antes mesmo de começar. Eu sinto e passo por tudo isso todos os dias. Tudo isso me abala e muito. Há, no entanto, algo que me faz continuar e acreditar: alguns alunos. É, não são todos, infelizmente. Mas não dá para mudar o mundo todo de uma vez ou sozinha.
Como professora, mais do que transmitir conteúdos e vender modelos, eu busco plantar sementes. Sementes que eu espero que um dia germinem, cresçam e plantem outras sementes. São esses alunos que me ajudam a manter a chama acesa. É por eles que sigo em frente tentando fazer o meu melhor, tentando ser uma pessoa melhor, a melhor pessoa que posso ser. O dia de hoje, então, sem esses alunos, não faria sentido. Sem eles, eu não seria professora (existem professores sem alunos?). A eles dedico esta crônica e agradeço por tudo o que, mesmo sem saberem, me ensinaram.
Dia do professor 15/10/2016
O professor está sempre se atualizando, sempre aprendendo fora e dentro da sala de aula (sim, porque os alunos também nos ensinam muito), mas acima de tudo o professor precisa estar sempre lutando. Ele é um ser utópico por natureza, um sonhador, um idealista que acredita que a educação é o caminho para a transformação, para a mudança da sociedade de modo que esta se torne mais igualitária e mais justa (se você é professor e não acredita nisso, é bem provável que esteja na profissão errada). Por isso, todo professor tem (ou pelo menos deveria ter) a síndrome do beija-flor. Ele acredita piamente que fazendo a sua parte ajudará a formar cidadãos críticos e, portanto, cônscios de seus direitos e deveres e que, com isso, ajudará também a construir um mundo melhor para todos. O que eu estou dizendo aqui é que ser professor vai muito além de transmitir conteúdos, ser professor é inspirar pelo exemplo, é tocar vidas e ser também por elas tocado. Ninguém se torna professor por dinheiro ou por status... todos o fazem por amor e por fé. É uma profissão bonita e de utilidade pública, sim, mas como qualquer outra precisa ser reconhecida e valorizada, porque, afinal de contas, sonhos, amor e fé não enchem a barriga de ninguém. Eis então os meus votos para esse dia dos mestres: que os alunos percebam as oportunidades que têm de aprender muito mais do que o conteúdo da disciplina com cada professor que entra na sua sala, que a sociedade e o Estado se deem conta da função social desses profissionais e que passem a valorizá-los como merecem e que os meus colegas de profissão nunca deixem de sonhar e de lutar! Façam a diferença! Sejam a diferença! E, apesar das dificuldades que esses dias sombrios nos apresentam, aguentem firmes!
#professorcomorgulho
#escolasemmordaça
#professorcomorgulho
#escolasemmordaça
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
ASSASSINO POR ACASO (JUL/2018)
Não,
não era um sonho. Pensou Edgard Wernicke quando acordou no dia seguinte
enclausurado numa cela imunda e superlotada da penitenciária de Bonsucesso. Ele
que fizera tanto sucesso repentinamente, após um longo período de
invisibilidade, deveria estar agora se culpando por não ter ao menos terminado
a graduação em jornalismo que começara na juventude. Se o tivesse feito, teria
ao menos a garantia de uma cela especial em meio a toda aquela loucura que lhe
havia acometido desde a noite anterior. Mas não, ele não era um cara de
terminar as coisas, de começar sim, mas de terminar nunca. Em quantas
profissões havia mesmo se lançado antes de decidir tornar-se escritor? Inúmeras.
Tantas que já nem poderia mais se lembrar de todas. Mesmo a carreira de
escritor havia deslanchado de forma meio que repentina. É certo que desde rapaz
ele tentara escrever poemas, contos, crônicas, artigos... mas, além da pouca
qualidade dos manuscritos, faltava-lhe sobretudo fôlego para o grand finale.
Depois
das quase sete horas de depoimento na Delegacia de Homicídios, no centro da
cidade, ele foi levado para a penitenciária onde aguardaria o desenrolar das
investigações e, desde que fora jogado naquela cela onde se encontrava, havia
dormido menos que duas horas. Estava exausto, atordoado e ainda não conseguia
entender bem o que acontecera. Também durante o interrogatório ele não parecia
estar ali. O delegado inclusive lhe perguntara mais de uma vez se ele havia
feito uso de algum tipo de entorpecente. O senhor quer dizer droga? Acha que eu
sou um drogado? É isso? É por isso que estou aqui? Drogado, eu? Onde já se
viu?
O barulho de
passos era o aviso de que alguém se aproximava. Um por um os corpos amontoados
nas celas foram-se levantando. Ele ouvia sons esquisitos, meio animalescos, mas
não os identificava como palavras, até que um prisioneiro da sua cela,
iluminou-lhe a situação: É o café. Um carrinho vinha lentamente sendo empurrado
pelo corredor, parando a cada cela para alimentar os homens famintos. Agora ele
conseguia entender uma ou duas palavras: xingamentos, reclamações... nada que
lhe interessasse. Quando o carrinho chegou à sua cela, a última do corredor, já
estava quase vazio. Percebeu que o que ali havia evidentemente não seria o
suficiente para todos. Os presos avançaram em direção às grades e,
debatendo-se, tentavam pegar alguma coisa. Houve briga pelo último pedaço de
pão dormido e pelo copo de café visivelmente aguado, de modo que metade do seu
conteúdo se perdera no puxa-puxa. Foi preciso que um carcereiro interviesse
para que os presos acalmassem seus ânimos. Ainda assim, alguns ficaram sem
comer. Edgar sequer havia se levantado. Permanecera imóvel a observar a tudo e
a todos enquanto se desenrolava toda aquela algazarra. Após ter acalmado os
presos com promessas de tratamentos nada agradáveis, o carcereiro parou à
frente de onde Edgard se encontrava sentado no chão duro e frio. Ele a essa
altura já havia abaixado a cabeça. E com as mãos envoltas nas pernas tentava
entender. Teve a impressão de que alguém o olhava e ensaiou um leve levantar de
olhos. O carcereiro, com ar de superioridade e um jornal na mão, ria calado até
que a leitura em voz alta da manchete do jornal que trazia consigo perfurou o
silêncio e, como um punhal, atingiu em cheio o estômago de Edgard, deixando-o
sem ar:
PRESO NO RJ ESCRITOR
FAMOSO ACUSADO DE ASSASSINATOS EM SÉRIE
EDGARD WERNICKE, O
CÉLEBRE AUTOR DE ROMANCES POLICIAIS, FOI PRESO NA NOITE DESTA QUARTA-FEIRA (30)
PELO ASSASSINATO DE CERCA DE 20 MULHERES NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. SEGUNDO
OS POLICIAIS RESPONSÁVEIS PELA INVESTIGAÇÃO, WERNICKE TERIA CONFESSADO EM SUAS
OBRAS DETALHES NÃO REVELADOS PELOS PERITOS.
Aquelas
palavras não faziam sentido para Edgard. Ele se lembrava apenas de estar no
lançamento de seu último livro com uma taça de Champagne na mão quando os
policiais entraram e anunciaram a sua prisão. Na delegacia, foi imediatamente
levado para a sala de interrogatório, mas lá também ele não havia conseguido
compreender o que ocorria. Tudo para ele eram flashes desconexos. Agora
imaginava que poderia ser efeito do álcool, mas também não lembrava de ter
bebido tanto assim.
Terminada a
leitura da manchete, o silêncio se reestabeleceu, mas por pouco tempo. Foi novamente
o policial que fez as honras: Mas não é que a minha hospedaria está ficando
prestigiada? Quem diria que eu seria o anfitrião de uma celebridade? O silêncio
de Edgard incomodou a autoridade. O que é? As instalações não estão lhe
agradando? Ou será que o escritor perdeu as palavras? Os demais presos
gargalhavam quando um deles comentou: Ele não disse uma palavra nem se levantou
desde que veio pra cá. Dormiu pouco e, desde que acordou, tá aí sentado com
essa cara de louco. Ao que um outro completou: Deve estar na secura de matar
mais alguma mulher! E aproximando-se de Edgard para fitá-lo bem nos olhos: Não
é desse veneno que tu gosta? Essas palavras promoveram uma tempestade no
semblante de Edgard. Ele se levantou num salto e empurrou o outro preso, que
caiu no chão levando consigo mais dois outros que estavam próximos: Eu sou
inocente. INOCENTE. Entenderam? Não sei do que estão falando ou o que
aconteceu. Mas sei que vão se arrepender profundamente. Meus advogados irão
cuidar disso.
O policial que
até então observava tudo calado soltou uma imensa gargalhada e, batendo palmas,
falou: Ótima continuação para o seu romance. Não é muito original, é verdade.
Mas é boa... Um assassino em série, um psicopata que se diz inocente e tenta
convencer a todos a sua volta. Pode ficar interessante. Edgard permaneceu
imóvel enquanto o policial se deliciava com suas elucubrações até que este, por
fim, suspendeu o escárnio e, olhando fixamente nos olhos de Edgar, disse: Inocente?
Aqui só tem inocente. Todos esses animais que estão enjaulados aqui são
inocentes, um mais inocente que o outro. Mas eu acho que o senhor está
precisando aprender a como responder com cortesia à excelente recepção que lhe
está sendo dispensada em minhas instalações. Ele olhou para os três presos que
permaneciam caídos e disse: É todo de vocês. Tratem com carinho. E saiu
calmamente. Os presos se levantaram, também sem muita pressa, os demais homens
que estavam na cela – cerca de 20 – se juntaram a eles e naquela manhã Edgard
levou a sua primeira surra. Quando os prisioneiros terminaram, o escritor,
ensanguentado, rastejou até o canto em que se encontrara antes e seguiu calado
durante todo o dia. Nem um gemido sequer ouviu-se dele. O único contato que
teve com seus companheiros de cela, se é que isto pode ser chamado de contato,
ocorreu quando, sem que percebesse, uma voz rouca se aproximou do seu ouvido e sussurrou:
Se falar para alguém, a próxima será pior.
À noite,
naquele mesmo dia, Edgard foi novamente chamado para depor. O delegado vendo os
inúmeros hematomas e a roupa ensanguentada perguntou o que havia acontecido. O carcereiro
que instigara os outros presos também estava na sala. Edgard o olhou e disse:
Eu caí. Caiu? Do vigésimo primeiro andar, rapaz? Apenas caí, respondeu Edgar.
Meu Deus do céu, Carlos – esse era o nome do policial carcereiro –, chama um
médico e providencie a troca desse prisioneiro de cela imediatamente. Perdão,
chefe, mas não há outra cela. Todas estão lotadas – informou o policial. Dá o
seu jeito. Muda prisioneiro de cela. Mas esse aqui não irá voltar para a mesma
de onde veio. Sim, senhor – disse Carlos se retirando enquanto lançava um olhar
fulminante em Edgard. O delegado parecia saber que havia algo muito estranho
acontecendo ali, talvez por isso, uma vez sozinhos, tenha novamente questionado
Edgar sobre o que havia acontecido. Mas este, embora reconhecesse que aquele
ali parecia ser confiável, emitiu apenas uma frase: Quero ver meus advogados.
Amanhã, respondeu o delegado, hoje você verá o médico.
Após ser
atendido pelo médico, Edgard foi encaminhado para a nova cela, que estava tão
lotada quanto a anterior. Porém, apesar das piadinhas que teve de ouvir, dessa
vez ninguém ousou se aproximar dele. Imaginou que Carlos lhes havia avisado que
o delegado estava desconfiado e que por isso ninguém deveria tocar em um fio de
seu cabelo sequer.
A noite foi
longa. Vez ou outra, uns ruídos estranhos interrompiam o silêncio devastador.
Ora alguém, da sua cela ou das vizinhas, ia se aliviar na latrina e não media
esforços para ser o mais barulhento possível, ora os sons se assemelhavam a
sussurros e gemidos. Animais, pensava Edgard, bando de animais. Embora
estivesse com os olhos o tempo todo fechados, Edgard não conseguia dormir. Se
os mantinha selados, era porque assim tinha a impressão de que estava protegido
e de que ninguém o importunaria. Ele só precisava ficar um tempo sozinho com
seus pensamentos para entender tudo aquilo que estava acontecendo. Edgard não
sentia dor física, mas uma de outra ordem que o consumia por dentro. Uma dor
moral, a dor de quem estava sendo injustiçado sem sequer saber o porquê. Ele
tinha certeza de que tinha ocorrido um equívoco. A polícia estava enganada,
prendera o cara errado enquanto o verdadeiro assassino estava solto por aí,
talvez até em busca de uma outra vítima. Mas o que especificamente havia feito
com que a polícia cometesse tamanho engano? E por que a sua cabeça doía tanto?
Ele sabia que não era apenas devido à surra que levara mais cedo, porque antes
disso ele já não se sentia bem. A notícia do jornal cuja manchete o policial
havia lido em voz alta de manhã mencionava os seus livros e, durante o
interrogatório, o delegado havia inúmeras vezes lhe questionado sobre detalhes
específicos dos enredos dos seus três últimos romances. Mas o que isso tinha a
ver com a sua prisão? Os livros são ficção. Será que as pessoas não entendem
isso? Seria possível que ele tivesse sido preso única e exclusivamente porque
havia algumas coincidências entre o enredo dos seus livros e assassinatos sobre
os quais ele jamais ouvira falar?
A cabeça de
Edgar começou a doer absurdamente, e os pensamentos lhe fugiram. Pouco tempo
depois ele acabou caindo no sono. E dormindo, sonhou com o dia em que a sua
vida começou a mudar: o dia em que achou o primeiro caderno. Há cinco anos
Edgard era um sujeito invisível. Entrava e saía de empregos. Já havia atuado
nas mais diversas áreas, mas em nenhuma havia obtido sucesso. Não tinha
parentes ou amigos. Nem mesmo um cachorro. O pai o abandonara ainda quando
criança e a mãe falecera há cerca de 10 anos, deixando-lhe algumas economias
com que sobrevivia sem mordomias. Contava Edgar à época 37 anos. Era um homem
sem graça, introspectivo, que aparentava ter mais idade do que realmente tinha.
Vivia com os cabelos desgrenhados, os óculos sujos e com as roupas amarrotadas.
Certo dia, a senhoria do apartamento onde vivera durante toda a sua vida disse
que precisava do apartamento para uma filha que iria casar. Edgard precisou
então procurar um novo lugar para morar. Algum tempo depois estava de mudança
para um apartamento pequeno em Botafogo. Fez tudo sozinho. Embalou os seus
pertences, desmontou os poucos móveis, contratou o caminhão de mudança e até
ajudou a descarregar tudo no seu novo lar. Apesar do transtorno de ter de se
mudar, aquilo de alguma forma havia feito com que Edgard se sentisse útil. Foi
necessário que ele se mexesse, que fizesse tudo por si mesmo. E até aquele
momento parecia estar dando certo. Mais do que nunca, ele se sentia vivo.
A despeito da
sua aparência largada, Edgard era extremamente metódico e organizado com as
suas coisas. Por isso perdeu horas colocando tudo no seu devido lugar. Durante
a arrumação do quarto, encontrou um taco solto. Levantou-o para verificar se
era possível recolá-lo facilmente e foi então que percebeu que, na verdade, se
tratava de um esconderijo. Sob o piso, havia guardado um pequeno caderno.
Estava empoeirado e suas folhas estavam um pouco amareladas do tempo. Edgard o
folheou e viu que tinha todas as páginas escritas. Pensou que talvez fosse do
antigo morador e jogou-o para o lado a fim de terminar a sua arrumação.
À noite,
quando foi apagar a luz da luminária que ficava na mesinha de cabeceira ao lado
da cama, viu novamente o caderno. Como estava sem sono, resolveu mais uma vez
folheá-lo e ler algumas partes. Para sua surpresa, era uma história, um romance
policial que, narrado em primeira pessoa, trazia a ótica do assassino sobre os
seus crimes. Tudo, desde a escolha da vítima – sempre mulheres – até o modus operandi empregado para matá-las, no
primeiro dia de cada estação do ano, fizesse chuva ou sol, era descrito
detalhadamente. Quatro mulheres eram mortas por ano, quatro mulheres escolhidas
a dedo e cujos hábitos diários eram acompanhados durante os quatro meses da
estação anterior até que chegasse o grande dia. Da mesma forma, eram explicados
com clareza todos os artifícios empregados pelo assassino para despistar as
autoridades e omitir os corpos. E tudo isso estava escrito de uma forma tão
instigante que Edgard não largou o caderno até que tivesse terminado de lê-lo
por inteiro. Quando terminou, ainda estava extasiado. Era uma história incrível
que subvertia a lógica dos romances policiais tradicionais. De súbito, ele se
levantou da cama e foi até o local do quarto onde havia encontrado o caderno
sob o taco solto. Foi então que percebeu que outros três tacos também estavam
soltos e que havia no vão embaixo deles mais três cadernos – igualmente
empoeirados, mas bem menos ou quase nada amarelados. A sensação que sentiu ao
encontrá-los era indescritível. Correu para a cama e pôs-se a lê-los
imediatamente. E o fez, assim como fizera com o primeiro, de uma tacada só.
Quando
terminou de ler o quarto caderno, o dia já havia amanhecido. Edgard, porém,
seguia sem sono. Ao contrário, estava elétrico depois de ler tudo aquilo. Certo
de que estava diante dos originais de um best-seller,
foi até a sala pegar o notebook a fim de pesquisar sobre o seu autor. Ligou-o e
começou a procurar o registro de qualquer coisa parecida com aquilo que já
tivesse sido publicada, mas seu esforço resultou inútil. No mesmo dia, à tarde,
lembrou de entrar em contato com o proprietário do apartamento. Talvez ele
pudesse lhe dar alguma informação sobre o paradeiro do antigo morador. Era um
senhor já de idade – disse-lhe o proprietário. Ele vivia só com um enfermeiro.
A família vinha raramente visitá-lo. O velho há anos encontrava-se muito
enfermo e faleceu um mês antes de Edgard se mudar para lá. O proprietário não
sabia nada sobre o possível paradeiro do enfermeiro.
Edgard não
conseguia acreditar naquilo tudo. Ele tinha quatro grandes obras inéditas em
suas mãos cujo autor aparentemente estava morto. Mas por que escrever tudo
aquilo estando à beira da morte? Quanto tempo ele deve ter demorado para criar
aquelas obras-primas? De onde viera tamanha inspiração? E aquela riqueza de
detalhes? Era simplesmente inacreditável. Mas por que será que o seu autor
nunca as publicara? Será que não reconhecia nelas o seu altíssimo valor? Seria
falta de ambição de tornar-se reconhecido nacional e, quem sabe, até
internacionalmente, já que estava prestes a morrer? Ou seria apenas vergonha de
ver um texto seu publicado? Nada disso importava mais. Por algum motivo aqueles
cadernos haviam sido colocados em seu caminho. Tudo o que sabia era que o mundo
não poderia ficar mais nem um minuto sem ter acesso àquelas obras.
Pegou
novamente o computador e começou a digitar a primeira história. Deu-lhe o nome
de O assassino sazonal e dividiu-o em
quatro capítulos intitulados Primavera, Verão, Outono e Inverno. Ao terminar,
ligou para um ex-colega seu da faculdade que era diretor de uma grande editora.
Edgard não tinha amigos de verdade, mas sabia que Mário Bitencourt, o maior
editor brasileiro, não deixaria uma grande oportunidade passar se a visse. Ele
ligou, mas a secretária lhe informou que Mário não podia atender. Ele insistiu,
pediu que ela dissesse a ele que era o seu amigo Edgard Santos – Wernicke era
nome artístico escolhido num site de sobrenomes alemães por ocasião da
publicação do primeiro romance –, que os dois haviam estudado juntos... mas
nada adiantara. A secretária por fim soltou um sinto muito seco e desligou o
telefone. Edgard, porém, estava decidido a fazer com que o mundo lesse aquelas
histórias e – é claro – a colher os louros que adviriam disso. Então, no dia
seguinte de manhã, estava de prontidão na porta da editora de Mário e, quando o
avistou, não hesitou. Aproximou-se cumprimentando-o como se fossem melhores
amigos. Mário demorou um tempo para reconhecê-lo e, quando finalmente
conseguiu, fez uma cara meio sem graça como se não entendesse o porquê de toda
aquela intimidade repentina. Recusado o convite para um café na cafeteria da
esquina, Edgard teve de improvisar. Explicou que vinha há anos construindo uma
trama policial perfeita com um assassino em série que narrava a história a
partir do seu ponto de vista, num estilo semelhante ao de Edgard Allan Poe,
algo sem igual no país. E completou dizendo que, como agora, após anos de
pesquisa, finalmente o primeiro livro estava pronto, ele havia se lembrado do
seu grande amigo da época da faculdade e, sabendo que ele era um grande editor,
não poderia conceder esse privilégio a outro. Mário, a princípio, não se
mostrou interessado, disse que no Brasil o mercado para romances policiais era
pequeno, mas, diante da insistência de Edgard, acabou aceitando ficar com os
originais para lê-lo assim que tivesse tempo.
Esse momento,
porém, parecia nunca chegar. Edgard ligara toda semana durante cinco meses para
a editora de Mário e a resposta dada pela secretária era sempre a mesma: o Sr.
Bitencourt ainda não teve tempo. Aquela espera foi enlouquecendo-o até que um
dia, quando ele menos esperava, recebeu uma ligação pessoal de Mário pedindo
que comparecesse em seu escritório no dia seguinte. Dito e feito. O editor
também ficara impressionado com a qualidade do texto, se comprometeu em
publicá-lo e registrou em contrato que Edgard deveria escrever mais quatro
livros da série, um por ano. Edgard estava tão feliz que nem pensou na hora que
só tinha quatro cadernos. Assinou o contrato e, pouco tempo depois, O assassino sazonal estava nas livrarias
de todo o país e, logo em seguida, também do mundo. O livro, bem como as suas
sequências, tornou-se uma verdadeira febre mundial. Todos queriam saber como e
quando aquele assassino insano seria preso, mesmo sabendo que a sua prisão
significaria o fim da série. É que o protagonista anti-herói despertava nos
leitores a mais profunda aversão de modo que a certeza de que um dia ele
pagaria pelos seus crimes era um pensamento que os confortava.
Com o sucesso
da série, Edgard ficou famoso. Tinha 42 anos. Agora era um homem charmoso,
seguro de si e altamente sociável. Andava sempre impecável, com os melhores
ternos e as mais finas camisas. Já não usava mais óculos, e o cabelo estava a
qualquer hora do dia meticulosamente penteado. Para divulgar seus livros,
viajou o mundo inteiro, deu entrevistas a sites, programas de fofoca, jornais e
revistas e era convidado para os eventos mais importantes do país. Chegou até
mesmo a receber do prefeito o título de cidadão ilustre da cidade. Enfim, sua
vida era totalmente diferente daquela que vivia há pouco mais de quatro anos. E
foi então justamente no dia do lançamento do quarto volume da série, ou seja,
do último caderno que ele havia encontrado, que Edgard foi preso.
O dia
amanhecera. O café chegara. Dessa vez, Edgard, que não se alimentava há quase
dois dias, conseguiu pegar um pedaço de pão. Todavia, mal começara a comer, foi
chamado pelo carcereiro. Seu advogado está aí. Edgard levantou-se e foi guiado
até uma sala onde poderia falar a sós com seu advogado. Roberto de Magalhães
Castro era, na verdade, advogado da editora de Mario Bitencourt, mas prestava
serviços pessoais a Edgard, desde que não houvesse conflito de interesses. A
sala era escura e tinha apenas uma mesa no centro com uma cadeira de cada lado.
Roberto estava sentado e, quando viu Edgard entrar, levou um susto e levantou-se
automaticamente para ajudá-lo a se sentar. Caramba, Edgard. O que aconteceu com
você? Não foi nada. Eu caí, respondeu Edgard. Obviamente, Roberto não acreditou
naquela história, mas antes que conseguisse fazer uma nova pergunta, Edgar o
interrompeu: O que está acontecendo, Roberto? Você não sabe?, perguntou o
advogado. Claro que não. Esses policiais ficam falando um monte de coisa sem
sentido, perguntando dos meus livros. Disseram que houve um assassinato. Mas eu
não entendo o que eu tenho a ver com isso. O advogado o corrigiu: Um não, foram
20. E os dezesseis primeiros aconteceram exatamente como descrito nos quatro
volumes do seu livro. Como assim, Roberto? Que assassinatos são esses de que eu
nunca ouvi falar? Não faz sentido. E como alguém pode ter matado conforme o
enredo do quarto volume se ele foi lançado ontem? Bem, disse Roberto,
sentando-se na cadeira em frente à de Edgard, aí é que está a questão. Os
assassinatos vêm acontecendo há anos, mas nunca foram noticiados, porque até
essa semana não se sabia que eram assassinatos. Imaginava-se que as vítimas
apenas haviam desaparecido e a polícia ainda não tinha conseguido ligar os
casos.
Até essa
semana? O que aconteceu nessa semana que mudou tudo?, perguntou Edgard. A
polícia recebeu uma denúncia anônima sobre o lugar onde estavam escondidos os
doze primeiros corpos. A pessoa que denunciou disse que, para encontrá-los, a
polícia deveria ler os seus livros. A investigação iniciou, e os corpos foram
encontrados exatamente nos lugares em que o assassino sazonal desovava as suas
vítimas. Não é possível!, gritou Edgard, batendo fortemente com a mão na mesa e
levantando-se. Não é possível. Ele repetia levando as mãos à cabeça. O advogado
continuou: Tem mais. Os laudos das autópsias identificaram que as causas das
mortes também foram as mesmas descritas por você nos romances. É um imitador!
Será que ninguém pensou nisso? Alguém leu os meus livros e está imitando os
crimes! Chama o delegado! Ele tem que me soltar. Há um assassino louco solto
nas ruas. Edgard, senta. Você não vê, Roberto. Eu fui preso injustamente!
Edgard, os livros... O que tem os livros, Roberto? Eles foram publicados após
as mortes acontecerem. Após? O que você quer dizer com isso? Não há como alguém
ter copiado o modus operandi. Edgard
se sentou desolado. Não conseguia entender como aquilo poderia estar
acontecendo com ele.
Você disse que
apenas doze corpos foram encontrados. Na verdade, agora dezesseis. No dia em
que te prenderam, no lançamento do quarto volume da série, os policiais apreenderam
também um exemplar do seu livro. A partir dele, quatro novos corpos de vítimas
foram encontrados. Meu Deus. Meu Deus., falava Edgard enquanto batia com as
duas mãos na própria cabeça. O que é isso? O que está acontecendo? Até que
cessou o movimento e, com as duas mãos ainda na cabeça, olhou para Roberto e
perguntou: Você não havia falado que eram vinte assassinatos? Sim. No dia da
sua prisão, a polícia recebeu uma nova denúncia anônima sobre o paradeiro dos
originais do quinto livro. Quinto livro? Que quinto livro? Não existe um quinto
livro! Existe sim, Edgard. Estava no seu apartamento, sob um taco solto no piso
do seu quarto, embaixo da cama. Edgard arregalou os olhos. Parecia que ele
havia visto um fantasma. Estava pálido e quase não respirava. On...onde é que
você disse que estava? No seu quarto, sob um piso solto. Não era possível. Não
era possível. Depois que ficara famoso, Edgard não havia se mudado do
apartamento de Botafogo. Ele gostava dali. Era bem localizado. E, além disso,
era graças àquele lugar que ele havia saído do anonimato. Mas tinha certeza de
que não havia mais nenhum livro ali. Depois que assinou o contrato com a
editora, ele voltou para casa e arrancou todos os pisos em busca de um quinto
volume. Não havia nada lá. Ele tinha certeza. Mal pensou tudo isso, veio-lhe
uma brilhante ideia. Eu preciso ver o manuscrito, disse. Preciso. E.. e quero
que você peça um teste de caligrafia. Assim vai ficar provado que eu não...
Edgard, quem disse que era um manuscrito? O quinto volume encontrado estava
digitado. A polícia ainda o está lendo para descobrir os paradeiros dos
corpos... Digitado? Você leu esse livro, Roberto? Ainda não, porque, como
disse, a polícia ainda está fazendo um levantamento dos lugares de desova. Eu
não escrevi esse livro, Roberto. Eu não escrevi.
Edgard, os
policiais me anteciparam algumas informações sobre esse volume. Fala, homem! O
que pode ser pior do que tudo o que já está acontecendo. Nele, o assassino se
identifica como o autor das histórias e diz que os assassinatos são um
experimento, uma espécie de laboratório para os seus livros. Ele também revela
que é usuário de uma droga alucinógena que faz com que consiga fantasiar os
seus crimes sem sentir remorso... Edgar ouvia tudo calado, mas a pausa de Roberto
o fez imaginar que poderia haver mais. O quê? Que mais, Roberto? Fala! Foi
encontrada uma grande quantidade dessa droga no seu apartamento. Também
encontraram luvas de látex brancas, seringas, agulhas e uma substância
psicoativa usada nas vítimas para deixá-las em estado catatônico enquanto o
assassino as torturava. Cloridrato de
Prometazina! Exclamou, Edgar. É um sedativo liberado usado para produzir sono
ou aliviar a dor, quando combinado com analgésicos, mas administrado em grandes
quantidades leva à catatonia. Roberto olhava assustado para Edgard enquanto ele
falava tudo isso. O quê, Roberto? Eu escrevi os livros, esqueceu? Sei todos os
detalhes. E, assim que terminou de falar essas palavras, percebeu que seria impossível
provar a sua inocência. Ele escrevera os livros. Ele sabia de todos os detalhes
dos assassinatos que aconteceram antes mesmo dos livros serem publicados.
Somente ele.
Edgard, disse
Roberto. Você lembra de ter passado por perícia médica assim que chegou aqui?
Acho que sim. Dentre outras coisas, eles fizeram um exame de sangue. Veja. Este
é o laudo. Edgard pegou o papel e o leu. Você vê, Edgard? Deu positivo para
LCD. Quando você foi preso, você estava sob efeito da droga que o assassino
revelou usar no quinto livro. Era por isso que estava tão atordoado no dia
anterior, por isso suas lembranças estavam tão confusas e por isso também não
conseguia entender o que os policias lhe falavam. Alguém o havia drogado no
coquetel de lançamento do quarto volume da série. Roberto – disse Edgar se
levantando, indo em direção ao advogado e segurando-o pelos braços –, eu
preciso ver esse livro! Tem alguém querendo me incriminar. Eu preciso saber o
que está escrito lá. Não sei, Edgard. O livro foi arrolado como evidência. Acho
difícil que eu consiga uma cópia. Você precisa.
No dia
seguinte, Edgard recebeu uma visita inesperada. Quando chegou à sala, a mesma
em que estivera com seu advogado no dia anterior, viu um homem desconhecido
vestido todo de branco. O homem pediu ao policial que esperasse lá fora. Você é
médico?, perguntou Edgard. O homem abriu uma maleta preta, calçou luvas brancas
de látex, pegou um estetoscópio e, fingindo auscultar Edgard, falou baixinho no
seu ouvido: Eles acham que sim. Mas você não é? Digamos que eu sou um faxineiro
que, dentre outras coisas, trabalha na área da saúde. Mas quem é você de
verdade? Um fã, Sr. Wernicke, o seu fã número um. E trouxe um presente para
você. Nesse momento, o homem abriu novamente a maleta e tirou de dentro um maço
de folhas, que entregou a Edgard. Na primeira folha, em caixa alta e negrito,
estava escrito: Assassino sazonal: o ato
final. Edgard arregalou os olhos, levantou a cabeça e olhou para o homem.
Guarde-o sob a roupa, Sr. Wernicke, não queremos que nossos amigos peguem isso
de você. Edgard automaticamente fez o que o homem lhe aconselhou. Enquanto
isso, o homem voltava a abrir a maleta. Sabe, na verdade, tenho mais um
presente. Dela retirou algo pequeno que Edgard não conseguiu identificar e
colocou em seu bolso. Mas esse aqui você só verá mais tarde. Em seguida, o
falso médico bateu à porta onde se encontrava o policial. Era Carlos. Veja, meu
amigo – tirando as luvas e colocando-as junto com o estetoscópio na maleta –, esse
aqui está muito bem de saúde. O advogado dele exagerou ao solicitar os meus
serviços. Pode levá-lo de volta para a cela.
No caminho de
volta, Carlos não hesitou em alfinetar Edgard: Então, Sr. Escritor, gostando
das nossas acomodações? Edgard não respondeu. Eu ouvi dizer que o grand finale ainda está por vir. Na
cela, Edgard sentou-se no mesmo canto de sempre. Não quis comer nem no almoço,
nem na janta. E os outros presos agradeceram por poderem repartir mais aquela
refeição. À noite, depois que todos estavam dormindo, Edgard retirou o maço de
folhas que ainda estava debaixo da camisa. Estava escuro, e ele precisou engatinhar
até as grades da cela para aproveitar uma nesga de luz que vinha do final do
corredor onde ficavam os carcereiros. Fez tudo da forma mais silenciosa
possível para que não fosse percebido pelos demais presos ou pelos policias.
Começou a leitura e, de fato, ali constava tudo o que Roberto havia dito. Os
assassinatos, as drogas... até mesmo a invasão à casa dele e o lugar exato onde
encontraram os originais do quinto livro. Os nomes dos personagens eram outros,
mas a semelhança com a realidade era indiscutível. Indiscutível era também a
originalidade daquele texto, que tinha o mesmo estilo e mantinha a coerência
com as histórias anteriores, mesmo com o quarto volume, que havia sido lançado
somente no dia em que havia sido preso. Não havia dúvida: aquele volume havia
sido escrito pela mesma pessoa que escreveu os demais, e o assassino era o
verdadeiro autor das histórias. Mas quem era ele e como havia chegado até Edgar?
Drogas. Luvas.
Seringas. Procedimentos médicos... “um faxineiro que trabalha na área da saúde”.
Foi então que o óbvio de repente se desenhou de forma lúcida na sua frente. Meu
Deus, é o enfermeiro do antigo morador do meu apartamento! É ele. Só pode ser
ele. Ele é o assassino e resolveu se vingar por eu ter publicado as suas histórias.
A descoberta o deixou aturdido. Apesar de saber que essa era a verdade, sabia
também que não tinha provas e que ninguém acreditaria nele. Até mesmo os
manuscritos dos volumes anteriores ele já havia jogado fora. No mais, tinha
dúvida se realmente queria que todos soubessem que ele não era o verdadeiro
autor das histórias. Afinal, aquelas histórias haviam lhe dado tudo o que
tinha, tudo o que era. Ele era aquele homem, o Edgard Wernicke, homem
interessante, admirado, invejado. Não o Edgard Santos. E ele só pôde ser
Wernicke porque escreveu aquelas histórias. Negar a sua autoria seria voltar a
ser o outro. E será mesmo que ele queria isso? Será que ele suportaria voltar a
ser invisível? Foi então que se lembrou de ler o último capítulo do quinto
volume.
Deus fez o mundo em seis dias e desde então
o homem o vem destruindo. Há pessoas demais nesse planeta, pessoas demais que
não valorizam a dádiva que é viver. A procriação indiscriminada será o nosso
fim, não a nossa continuação. 20 mulheres. 20 mulheres que deixaram de
procriar. Quantas crianças eu salvei de virem a esse inferno? Quanta destruição
eu impedi que elas cometessem se tivessem vindo? Eu sou o faxineiro que varre
do mundo a sua escória. Ninguém nunca nota o faxineiro. Daí a genialidade da
minha obra. Uma obra audaciosa, é certo. Com uma trama perfeita, sem uma única
falha. E agora que todos sabem quem eu sou. Que o mérito por toda essa magnífica
ópera foi devidamente atribuído ao seu verdadeiro maestro. Eu posso, enfim,
descansar em paz. E descanso ciente de que depois de mim outros virão, porque,
embora essa apresentação tenha chegado ao seu ato final, a sinfonia, esta
jamais estará acabada.
Ao terminar de
ler o último parágrafo do último capítulo, Edgard permaneceu atônito por um
tempo. Sua respiração estava acelerada. Não sabia o que pensar. Ele vai se
matar? É isso? Fez tudo isso para se matar e eu permanecer aqui, nesse inferno,
para o resto da vida? Recolheu as folhas e coloco-as novamente debaixo da
camisa. Nesse momento, passou a mão involuntariamente pelo bolso e sentiu um
pequeno volume. O segundo presente do enfermeiro!, lembrou-se. Edgard retirou-o
do bolso. Era um pequeno frasco com um líquido transparente dentro. Em sua
superfície, um rótulo branco no qual havia escrito apenas uma palavra: PAZ.
Edgard não pensou duas vezes. Abriu o frasco e, numa golada só, tomou todo o seu
conteúdo.
(Re)cortes da vida cotidiana (set/2019)
Ser professor por amor é o que todos esperam de nós.
Não pense na crise, trabalhe! - disse o Fora Temer.
Quem ama o que faz está sempre de férias! - me diziam os militares.
Trabalhe até morrer, seu país precisa de você - diz o Ele não.
A vida apenas, sem mistificação - certo mesmo estava Drummond.
Não pense na crise, trabalhe! - disse o Fora Temer.
Quem ama o que faz está sempre de férias! - me diziam os militares.
Trabalhe até morrer, seu país precisa de você - diz o Ele não.
A vida apenas, sem mistificação - certo mesmo estava Drummond.
quinta-feira, 28 de junho de 2018
Antes só do que má acompanhada (junho/2016)
Ela trazia o coração partido do
seu último relacionamento. A dor fez com que levantasse um muro para protegê-lo.
Ele chegou devagar, fingindo-se de bom moço. Era bem-sucedido e cobiçado por
todas as funcionárias da empresa. Isso não lhe enchia os olhos, mas ele insistiu.
Apesar da fama de mulherengo, bonito não era, mas tinha bom papo. Era considerado
um exemplo por todos e dizia querer casar e ter filhos.
Aos poucos ele a convenceu. Por
que, não? Ela disse: Eu não sou como as outras. E ele respondeu: Eu sei. O álcool
fez com que ela baixasse a guarda, e eles se beijaram. Assim aconteceu uma,
duas, três vezes. E cinco meses depois ainda estavam “juntos”. Eles pareciam um
casal. Ele a apresentara a família, a levava para o trabalho todos os dias no seu carro. Eles
se tratavam como se fossem um casal, exceto quando ele marcava com ela e a
deixava esperando ou quando ele preferia sair com os amigos sem convidá-la. Quando
isso acontecia, ela tentava terminar aquilo que achava que existia. Ele dizia
que precisava dela e pedia mais uma chance. Como o muro já havia caído, ela
aceitava.
Certo dia, depois de um
desentendimento, ele publicou numa rede social que estava numa boate. Era dia
de semana. E ele não havia lhe falado nada. Cansada daquilo tudo que já não
parecia ter mais futuro, ela decidiu deletá-lo da sua vida. Dois dias depois, eles
se encontraram numa festa. Ele, de mão dada com a ex, como se fossem um casal. Ela
passou por eles, o olhou e o cumprimentou de cabeça erguida e um tanto quanto
aliviada. Afinal, antes só do que mal acompanhada.
terça-feira, 1 de maio de 2018
No dia do trabalho, uma reflexão
A gente trabalha demais e vive de menos, se diverte de menos, aproveita a família, os amigos e a vida de menos. A gente trabalha demais e, na maioria das vezes, nós não temos o nosso esforço e dedicação reconhecidos. A gente sai para beber, comer, dançar e jogar papo fora de menos, e nos acostumamos com isso, porque a vida toda ouvimos que crescer era isso, que era exatamente isso que devíamos fazer depois de anos e anos de estudo. Afinal, estudamos para quando crescermos termos uma profissão. Crescemos, temos uma profissão, deixamos de viver e achamos isso normal. Devido à labuta diária, nós já não ouvimos mais música como antes: a música é de menos, a leitura também é de menos, assim com a poesia, a arte e o tempo dedicado à escrita. Nós levamos a vida a sério demais, o tempo todo, porque temos compromissos, responsabilidades, e esquecemos de rir de bobeira, de assistir filmes e programas bobos apenas porque sim. A correria do dia a dia é tanta que não nos permitimos deixar o tempo passar frouxo sem ficar com o sentimento de que ele foi perdido, como se perder tempo fosse algo ruim e trabalhar insanamente fosse algo bom. Trabalhando dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, sendo cada vez mais exigidos por nossos patrões, deixamos de ter a paixão que tínhamos inicialmente pela profissão. Com o tempo, por causa dela, deixamos de fazer o que queremos fazer, para fazermos o que devemos fazer. A rotina e o excesso sempre estragam tudo. Enfim, vivemos para trabalhar, em vez de trabalharmos para viver, e a profissão, em vez de nosso meio de vida, se torna o nosso meio de morte. A questão é: no final, tudo isso terá valido a pena?
Thaís Costa
(1/5/2018)
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
Afetar(-se)
Afetar(-se)
Thaís Costa
13/11/2017
Se eu te afeto
e você me afeta,
nós nos afetamos.
E logo logo de tanto afeto
seremos dois afetados.
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Bala achada
Bala achada
Thaís Costa
3/11/2017
e a luz se apaga.
De repente, não mais que de repente
Toda uma existência se acaba.
A estatística fatal:
Fa-ta-lis-ti-ca-men-te,
o que era
deixa de ser.
A bala homicida de onde veio?
Não foi possível perceber.
Um forte impacto.
Um barulho profundo.
Em alguns instantes
o relógio da vida para de andar
e o pulsar constante
vai rapidamente ficando devagar.
Em câmera lenta, vejo passar na minha frente
O filme das minhas vidas –
da vida vivida
e das vidas perdidas.
Me vejo pequena segura e contente no colo de meus pais
Vejo os amigos que cultivei por desejo
e os que perdi no meio do caminho por distração
Os amores que tive, um beijo...
Os filhos que poderia ter tido
Inúmeros futuros que já não são
Possibilidades possíveis para quem vive
A mim, cabe apenas o sem sentido
Outrora e porvir, onde estão?
Sonhos roubados.
Destinos interrompidos.
Tão incompreensivelmente quanto
a violência que inunda vermelha esse momento,
TUDO
Rapidamente
I-nes-pe-ra-da-men-te
Vira NADA.
O céu vestido de um azul radiante
e o calor do sol que aos poucos em minha pele deixo de sentir
anunciam a proximidade do fim
Me fazendo inveja daquilo que estou a perder
"O mundo é tão bonito
Que dá até pena de morrer!"
Pensaria eu se soubesse que morro
Mas não sei
E também já não penso mais.
Um silêncio ensurdecedor
Meu corpo sem vida
molemente cai no cimento frio.
A chama, já fraca, enfim,
definitivamente se apaga.
Menos uma vida,
Mais uma vida violentamente subtraída,
finalizada.
Apenas um flash separa o agora
do que poderia ter sido
do futuro prometido e desacontecido
não fosse a bala achada.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Um poeminha para variar...
Livre associação
Thaís Costa (18/set/2017)
O dia
Alegria?
À tarde
Ele parte...
O vento
Tormento...
A chuva
Uma desculpa...
O anoitecer
Sem poder esquecer...
A noite fria
A cama
não ama
vazia.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
Polemizando... ou simplesmente dizendo o óbvio (junho/2017)
Thaís Costa
Junho/2017
Leio, atônita, no jornal que um rapaz de 17 anos, após ter supostamente tentado roubar uma bicicleta, foi imobilizado por dois homens, que, não satisfeitos, tatuaram em sua testa: “Eu sou ladrão e vacilão”. Digo “supostamente” porque até o presente momento não foi comprovado que o crime foi de fato cometido pelo jovem. O caso foi extremamente comentado pela sociedade e despertou debates calorosos nas redes sociais. Mas por que esse caso teve tanta repercussão? Por um lado, porque inflou o ânimo dos justiceiros de plantão que acreditam que justiça se faz com violência. Por outro, porque incitou a discussão sobre a diferença entre legítima defesa e tortura, entre o que é justo e o que é fazer justiça.
O Código Penal brasileiro caracteriza a chamada
Legítima Defesa como um “Excludente de Ilicitude”. Isso significa dizer que a
pessoa que age em legítima defesa, mesmo que isso implique o homicídio de
alguém, não cumprirá pena porque se entende legalmente que não cometeu um crime.
O Artigo 25 do mesmo código apresenta a seguinte definição: “Entende-se em legítima defesa quem, usando
moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou
iminente, a direito seu ou de outrem”. Analisemos aqui a oração subordinada
adverbial condicional reduzida de gerúndio “usando moderadamente dos meios
necessários”. Ela determina que SOMENTE é considerado legítima defesa SE a
vítima ou testemunha empregar de forma MODERADA os meios necessários para
repelir agressão sofrida ou por sofrer. Já por moderado, entende-se que o ato
de defesa deve ser PROPORCIONAL à gravidade da ameaça ou agressão.
Assim sendo, o que a lei prevê como Legítima Defesa não consiste num salvo-conduto para que se pratiquem indefinidamente homicídios ou lesões corporais, tampouco permite que um cidadão, sentindo-se lesado, “faça justiça com as próprias mãos”. Nesse caso, portanto, uma vez que o jovem de 17 anos – um menor de idade segundo a lei vigente no Brasil – já estava imobilizado, o que se praticou contra ele, ao amarrá-lo, cortar os seus cabelos e fazer-lhe uma tatuagem na testa contra a sua vontade, NÃO se caracteriza, em hipótese alguma, como legítima defesa. Trata-se, ao contrário, de crime de tortura cometido contra um menor. O artigo 1º. da Convenção da ONU contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes define a tortura como “qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de terceira pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza”. Consiste, conforme dispõe o Artigo 5º inciso XLIII da Constituição Federal, em crime inafiançável, não sujeito a graça e anistia; um crime grave equiparado, segundo o Artigo 2º I e II da lei de crimes Hediondos, a um crime hediondo, sendo, portanto, vedado ao torturador o direito a indulto. Ou seja, a tortura cometida pelo tatuador e seu comparsa é crime muito mais grave, de acordo com a legislação brasileira, que o de roubo supostamente praticado pelo rapaz.
Assim sendo, o que a lei prevê como Legítima Defesa não consiste num salvo-conduto para que se pratiquem indefinidamente homicídios ou lesões corporais, tampouco permite que um cidadão, sentindo-se lesado, “faça justiça com as próprias mãos”. Nesse caso, portanto, uma vez que o jovem de 17 anos – um menor de idade segundo a lei vigente no Brasil – já estava imobilizado, o que se praticou contra ele, ao amarrá-lo, cortar os seus cabelos e fazer-lhe uma tatuagem na testa contra a sua vontade, NÃO se caracteriza, em hipótese alguma, como legítima defesa. Trata-se, ao contrário, de crime de tortura cometido contra um menor. O artigo 1º. da Convenção da ONU contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes define a tortura como “qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de terceira pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza”. Consiste, conforme dispõe o Artigo 5º inciso XLIII da Constituição Federal, em crime inafiançável, não sujeito a graça e anistia; um crime grave equiparado, segundo o Artigo 2º I e II da lei de crimes Hediondos, a um crime hediondo, sendo, portanto, vedado ao torturador o direito a indulto. Ou seja, a tortura cometida pelo tatuador e seu comparsa é crime muito mais grave, de acordo com a legislação brasileira, que o de roubo supostamente praticado pelo rapaz.
O segundo ponto que se faz preciso comentar diz
respeito à diferença entre ser justo e fazer justiça. Toda sociedade
estrutura-se em torno de leis que regem o convívio dos cidadãos que dela fazem
parte. Numa democracia, o conjunto de leis do chamado estado democrático de
direito constrói-se a partir de um processo legislativo e seu valor jurídico
tem por objetivo assegurar a estabilidade governamental e a segurança das
relações sociais estabelecidas entre cidadãos, instituições e empresas.
A Constituição Federal afirma a igualdade de
todos perante a lei e o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos
(PIDCP), artigo 14, item 2, dispõe que “Toda pessoa acusada de um delito terá o
direito a que se presuma sua inocência enquanto não for legalmente comprovada a
culpa”. É nesse fundamento que também se baseia a nossa Constituição ao prever
o direito de todos a um julgamento justo por meio dos princípios do devido
processo legal, do contraditório, da ampla defesa e da publicização. Ao se
prender em cárcere privado e torturar uma pessoa como punição por um crime pelo
qual ela não foi julgada perante a lei, nega-se, portanto, a ela o princípio da
isonomia, a pressuposição de inocência e o direito a um julgamento justo,
conforme previsto nas leis que regem a nossa sociedade.
Há quem diga, no entanto, que a negação desses
direitos se justifica porque, no Brasil, a Lei não funciona. Confunde-se aí “alhos
com bugalhos”. A insatisfação com a justiça brasileira, asseverada devido ao
momento político em que vivemos, não deve ser motivo para o descumprimento das
leis. Há, sim, os direitos individuais, mas acima deles estão as leis que têm
por objetivo assegurar o bem-estar social. Ou seja, para que se mantenha a
ordem, os anseios individuais devem estar submetidos à legislação em vigor,
caso contrário o convívio social seria simplesmente impossível. Sob a
perspectiva legal, então, é justo o
que está em conformidade com a justiça,
e esta diz respeito à aplicação das leis vigentes no país, ainda que observemos
falhas na sua aplicação.
Há, porém, um sentido de justiça do qual deriva
uma série de mal-entendidos. Segundo o dicionário Aulete, a palavra justiça
pode também ser compreendida como o reconhecimento do valor de alguém ou de
algo, isto é, como fazer justiça a alguém. O equívoco, portanto, que leva
determinadas pessoas a se autointitularem justiceiras ou a defenderem o ponto
de vista destas reside na consideração de que há pessoas que têm mais valor que
outras e que, por isso, é preciso lhes fazer justiça. Trata-se, pois, de um
critério subjetivo: eu não consigo imaginar como tatuar a testa de um jovem
pode combater a violência urbana, mas há quem assim considere que seja uma forma eficaz de se resolver o problema e de se fazer justiça. Note-se ainda aqui que
esse sentido vai contra o que está previsto em nossa legislação, segundo a qual
TODOS, sem exceção, são iguais. Sendo assim, segundo a lógica que rege o
funcionamento do nosso Estado e à qual todos nós enquanto cidadãos estamos
submetidos, se, por me achar superior a alguém, eu cometo um crime pensando
fazer justiça ou agir em legítima defesa, me torno igual ou pior que aquele que
critico e julgo inferior a mim. Logo, ao prender e torturar o rapaz como
punição para o seu suposto crime, o tatuador-torturador e o seu comparsa
tornaram-se criminosos inescrupulosos, desceram a um nível ainda mais baixo do
que aquele em que se encontrava o rapaz que prenderam, julgaram e puniram e, em
virtude disso, devem ser julgados e condenados no rigor da lei por crime de
cárcere privado e tortura contra menor.
Em outras palavras, se eu não concordo com as
leis ou com a forma como elas estão sendo aplicadas no país, não é
subvertendo-as que eu conseguirei mudar alguma coisa. Há maneiras legais de se
posicionar em relação a isso. Violência não combate violência, mas gera. Se
todos os cidadãos resolvessem fazer justiça com as próprias mãos, viveríamos no
caos, numa terra sem lei em que todos se julgam injustiçados e detentores de
mais direitos que os outros. Não adianta também tirar o foco da discussão
defendendo um crime porque não concorda com a maioridade penal vigente no
Brasil ou comparando o total arrecadado na vaquinha virtual que fizeram para
remover a tatuagem do rapaz com o de vaquinhas realizadas por/para pessoas que
foram vítimas da violência ou que têm doenças graves. Essas são outras
discussões/tragédias que em nada justificam o que aconteceu. Para além disso, há
outros fatores importantes a serem considerados aqui: o rapaz realmente cometeu
o crime? Por que antes de condená-lo nas redes sociais muitas pessoas
simplesmente ignoraram essa informação? Se cometeu, o que o levou a cometê-lo? A
família, em uma entrevista, afirmou que ele é dependente químico, tem problemas
psicológicos e estava há um mês fugido de casa. Como, então, o que fizeram com
ele pode resolver o problema da violência urbana ou da dependência química no
país? O que poderia, de fato, resolver? E como?
Em vez de se fazer essas perguntas e buscar uma
saída exequível e efetiva para o problema, a maioria das pessoas, do alto do
seu pedestal, ocupa-se em exercer um papel que não lhe cabe: julgar e condenar,
atacando os efeitos da violência urbana, e não as suas causas. Na primeira
metade do século passado, Bertolt Brecht fazia um questionamento que
hoje se faz mais atual do que nunca: “Que tempos são estes em que é preciso
defender o óbvio?”. E eu completo: que tempos são esses em que as
pessoas preferem achismos a argumentos? Tudo o que eu disse aqui deveria
ser óbvio, deveria ser senso comum, mas ainda é preciso dizer. E aqueles que o dizem, tentando tecer uma reflexão crítica sobre a situação em que vivemos, são rechaçados,
chamados de comunistas, esquerdopatas, ignorantes em lei e política. Que lei?
Que política? Se for a lei do mais forte, do mais ricos ou a política suja que vemos no nosso
dia a dia, obrigada. Prefiro ficar com a utopia e acreditar que é possível
lutar sem se perder.
Muito menos do que eu gostaria (7/6/2017)
Thaís Costa
Junho/2017
Finalizar o meu último texto e me dar conta do
avançar das horas me fez perceber algo terrível.. Eu escrevo muito menos do que
eu gostaria. Eu leio muito menos do que eu gostaria. Vejo meus amigos, brinco
com meus gatos e curto o conforto da minha casa muito menos do que eu gostaria.
Viajo, conheço novos lugares e culturas ou simplesmente paro para observar e sentir
a natureza muito menos do que eu gostaria. Não tenho namorado ou um grande
amor, ainda que não correspondido. Não sou fã de futebol ou adepta a religiões.
Trabalho como uma louca. E sinto falta quando não tenho que trabalhar. Como chocolate
quase todos os dias, essa pequena loucura me dá algum prazer. E sabe o que é
pior disso tudo? É o sentimento de não ter sido. Eu passo tanto tempo sendo,
que eu não consigo ser o que eu gostaria de ser. Eu sinto que eu poderia ser
tudo o que eu quisesse, se eu tivesse tempo para ser. Eu gostaria de estudar
história do Brasil e do mundo, filosofia, história da arte, literatura (por
mais que se conheça sempre há mais a se conhecer), música (eu verdadeiramente
gostaria de aprender a tocar algum instrumento), gastronomia (eu adoro
cozinhar...). Mas, em vez disso, a minha existência está fadada à subsistência.
É tarde. Eu devo dormir, amanhã um novo dia começa e é preciso acordar muito
cedo para ir trabalhar. Uma vida inteira isenta de grandes paixões, uma vida
sem perigos. “A vida apenas, sem mistificação”, como diria Drummond.
terça-feira, 6 de junho de 2017
A fome dos outros (6/6/2017)
Thaís
Costa
6/6/2017
Era
um dia comum. Terça-feira. Nesse dia, eu só trabalho presencialmente à tarde. Pela
manhã, faço coisas de casa, preparo aulas, provas... Acaba sendo um dia mais
corrido que outros em que fico o dia inteiro na escola. Tão corrido que acabei
indo trabalhar à tarde sem almoçar. E de tanta fome que senti, acabei me
esquecendo dela.
Após
minha aula, resolvi fazer compras. Precisava de umas roupas de frio para
trabalhar. Duas horas depois, quase 18h, finalmente entrei num fast-food japonês. Esfomeada, claro. Uma
hora eu tinha que lembrar que estava apenas com o café da manhã. Fiz rapidamente
o meu pedido e, sorrindo, brinquei com a atendente: Estou morrendo de fome, não almocei até agora. E ela respondeu: Eu também, mas eu já tirei a minha hora de
almoço, não almocei porque não tinha marmita para trazer hoje. Engoli a
seco. Meu sorriso, agora amarelo, vagarosamente, se desfez. Não consegui responder nada. Saí do
caixa e me dirigi ao lugar bem em frente. Sentei-me e fiquei olhando para
aquela mulher. Uma menina, na verdade, não devia ter muito mais que 18 anos.
Enquanto
eu aguardava o meu pedido, as histórias dela passaram em minha cabeça. O que
teria acontecido? Por que não tinha marmita para trazer? Teria sido a primeira
vez? Ela não tinha dinheiro para comprar um salgado? Não poderia comer algo na
empresa? Não teria ninguém para ajudá-la? Imaginei aquela moça em casa com pai,
mãe, irmãos, um filhinho, talvez, todos sem marmita. Pensei... Pensei... Pensei
em comprar algo para ela, mas me lembrei de que já havia tirado a sua hora de
almoço. E se ela não gostasse de japonês? Eu poderia comprar um lanche em outro
lugar. Mas, então, pensei de novo e cheguei à conclusão de que ela poderia se
sentir ofendida se eu oferecesse algo.
Ela
me chamou para pegar o meu pedido. Comi maquinalmente, olhando-a de forma fixa.
Só conseguia pensar na fome daquela moça. Comi rápido, por vergonha, talvez. Vergonha
por ter o que comer, por ter como pagar pela comida, aquela comida sem gosto
que me descia forçosamente. Vergonha por pensar tanto sobre a fome dos outros e
por não conseguir fazer nada. Saí de lá pensando ainda. E me lembrei das notas
de Álvaro de Campos sobre Caeiro em que ele dizia que o Fernando Pessoa era “um novelo embrulhado para o lado de dentro”, alguém
que está presente, mas que é como se não estivesse, alguém que “sente as coisas
mas não se mexe”.
Identifiquei-me profundamente com Pessoa nesse momento. Ele,
porém, teve a genialidade de criar tantas pessoas em uma só pessoa. A mim,
restou-me apenas a mediocridade de ser incapaz de fazer algo diante da fome
alheia. Eu era uma hipócrita.
Mas no Brasil não há negros? (6/6/2017)
Thaís Costa
6/6/2017
“Mas no Brasil não há negros?”, me perguntou uma amiga tunisiana. Pouco antes, ela me explicava que, para minha surpresa, na Tunísia, um país africano, não havia negros. Na época, eu achava que todo e qualquer país desse continente fosse povoado por negros. Tinha consciência de que havia brancos também. Me lembrava das aulas de história sobre o Apartheid. Mas a inexistência de negros em determinados países me surpreendeu. Não sei se porque eu realmente não soubesse ou porque jamais havia parado para realmente pensar sobre isso. A gente, por mais esclarecido que seja ou tente ser, tende a ver a África não com um continente, mas como um todo, apagando a sua diversidade, a diversidade dos povos que lá habitam e das culturas que lá existem. Então, na minha ignorância, a evidência era que na África havia negros. E ponto.
A pergunta da minha amiga era, portanto, no sentido de dizer: “Ué, mas no Brasil também não há, certo?”. Na época, eu morava em Paris, numa casa de estudantes brasileiros, na Cité Internacionale Universitaire. Toda casa da cité tinha que ter 20% de moradores estrangeiros para promover o intercâmbio cultural. Foi assim que conheci a jovem Marriem. Ela viera da Tunísia para cursar o mestrado; e eu fazia um ano de estágio doutoral na Sorbonne Nouvelle. A pergunta de Marriem foi resultado de sua observação. Puro exame indutivo, podemos dizer. Na Maison du Brésil, onde morávamos, havia cerca de 100 residentes, a maioria doutorandos ou pós-doutorandos. Apenas 20% era estrangeiro. Sobravam 80 brasileiros. Pouquíssimos eram negros. Durante o ano em que lá passei, conheci dois: uma professora de teatro da UFBA e um doutorando de direito da UNB. Marriem, provavelmente, não os conhecera. Havia cinco andares na Maison, muitas vezes nossos círculos de amizade se limitavam aos 20 moradores do andar. E, no nosso andar, de fato, não havia negros. Então ela, provavelmente, concluiu: “se não há negros na Maison du Brésil, é porque não há negros no Brasil”.
A pergunta de Marriem, porém, despertou em mim uma reflexão muito além da mera observação da falha do seu raciocínio. O que significava dizer que, na Maison du Brésil, casa de estudantes brasileiros em Paris, habitada predominantemente por doutorandos e pós-doutorandos, não havia ou havia pouquíssimos brasileiros negros? O que essa pergunta de uma estrangeira dizia sobre o meu país? Um país em que a maioria da população é negra ou mestiça. Lembro que, na época, fiz um comentário no facebook relatando o meu espanto, e alguém reduziu tudo a tal meritocracia: as pessoas que estavam na Maison passaram por um processo seletivo, eram as mais capacitadas, merecedoras, portanto, de ali estarem. Isso nada tem a ver com a cor da pele. Não é mesmo? Respondi a esse comentário – de um brasileiro negro, diga-se – com uma pergunta: “mas, se é uma questão de mérito, por que não há, nesse grupo, negros brasileiros tão merecedores quanto os brancos brasileiros?”.
Na mesma época, o caso de uma estudante negra e pobre da rede pública de ensino que obteve o primeiro lugar em medicina na USP – Ribeirão Preto, após obter um bônus total de 25% concedido pela USP a candidatos oriundos da rede pública (20%) e a negros, pardos e indígenas (5%), ganhava projeção na mídia brasileira. A jovem, que revelara até então acreditar não ter sido vítima de preconceito, comemorou o seu incrível – e, infelizmente, raro – feito publicando uma foto sua com a frase “a casa-grande surta quando a senzala vira médica” em sua página numa rede social. A foto viralizou. A menina recebeu muitos elogios, mas, também, muitos insultos. E mais uma vez eu pergunto: o que isso nos diz do nosso país? Seria essa menina um exemplo raro de meritocracia entre negros? A estudante relatou que obteve ajuda. Disse que fez curso pré-vestibular gratuito, que amigos da família ajudaram a custear um curso específico de matemática e que outros lhe deram livros. Isto é, a ajudaram naquilo que deveria ser um direito garantido seu. Mas os comentários em sua foto falavam do seu cabelo, da sua cor de pele. Desmereciam a sua conquista por ter sido “beneficiada”. Enfim... a casa-grande surtara.
Antes de prosseguir, faz-se preciso aqui refletir sobre o que se entende por preconceito. Uma rápida consulta a qualquer dicionário nos levará aos seguintes sentidos: 1. ideia, opinião ou julgamento preconcebido sobre algo ou alguém, sem que haja conhecimento ou reflexão; 2. Atitude genérica de discriminação ou rejeição de pessoas, grupos e ideias com base no sexo, na raça, na nacionalidade, na orientação sexual etc.; 3. Intolerância; 4. Superstição.
Alguns comentários na página da estudante foram, portanto, evidentemente, preconceituosos. Seus algozes não tentaram refutar a sua postagem. Em vez disso, a condenaram por sua raça. E assim a jovem conheceu o preconceito. Mas será que só agora ela o conheceu de fato? Por que ela e a mãe negra, empregada doméstica, moram na periferia? Por que ela estuda em escola pública? Por que ela precisa da ajuda de terceiros para ter acesso à educação de qualidade? Por que ela e outros negros como ela? Por que não é comum ver negro na universidade, quiça na faculdade de medicina? Por que feitos como o dessa jovem, mesmo com a bonificação oferecida pela USP e com o sistema de cotas presente em outras universidades, são raros? Quantos médicos, engenheiros, juízes, almirantes ou generais negros nós conhecemos? E, na televisão, quantos negros temos e quais os papéis destinados a eles? Será a maioria dos negros incompetente, não merecedora de ocupar determinados espaços?
No século XIX, o médico Nina Rodrigues defendia a inferioridade dos negros com base no que chamava de “marcha desigual do desenvolvimento filogenético da humanidade nas suas diversas divisões e seções”. Tal posicionamento foi, inclusive, por muito tempo empregado para justificar a escravidão no país. Se justificamos a ausência de negros em determinados espaços devido à sua falta de mérito, não estaríamos anacronicamente empregando um argumento há muito refutado pela ciência?
Falamos muito no dia 13 de maio de 1888, mas ainda pouco refletimos sobre o que aconteceu do dia 14 em diante. Ideias como a de Nina Rodrigues impuseram a necessidade de branqueamento da sociedade, já que se entendia que a predominância de negros era o empecilho para o desenvolvimento do país. Os ideais liberais, por seu turno, impunham a mão de obra assalariada. Mas, dada a sua suposta inferioridade, não foi a mão de obra dos negros a escolhida. Estes já não nos serviam mais. Vieram os imigrantes europeus. E os negros livres para onde foram? O que sobrou para eles? Que campanhas de inserção do negro na sociedade foram realizadas naquela época e desde então? O processo de marginalização e, portanto, de discriminação do negro no Brasil não é um fato contemporâneo, mas a continuação de um passado de crueldade e negligência. Começou no dia em que o primeiro navio negreiro atracou em nossas praias. Depois, mesmo livres, foram marginalizados. E à margem permanecem dois séculos depois. O funcionamento desse preconceito, dessa discriminação, é muito pior do que aquele cujo sentido encontramos no dicionário. Pior, porque silencioso, não evidente. Pior, porque tem como pressuposto a negação de direitos, a negação do acesso a determinados espaços, negação esta que, historicamente naturalizada, muitas vezes passa despercebida, inclusive para aqueles a quem acesso e direitos são negados.
segunda-feira, 15 de maio de 2017
Sobre quando se nasce do lado errado da cidade (SET/2015)
Thaís Costa
Setembro/2015
11 anos. Domingo de sol, gangues de playboys lutadores de jiu-jitsu decidem fazer justiça na zona sul. 11 anos, morador de um prédio invadido após desativação no Caju, estava brincando. Na zona sul, arrastões aconteceram num domingo de sol. Absurdo.11 anos, a mãe empregada doméstica na zona sul, aquela, vivia preocupada com seu futuro. Na zona sul, onde a sua mãe era empregada, os moradores se revoltaram e, não aguentando mais tanta violência, resolveram tomar uma atitude. 11 anos, estava brincando na favela, jogava ping pong, R$0.80 no bolso para comprar uma bolinha, correu para comprar logo, voltar logo e brincar mais. Na zona sul, os playboys justiceiros atacaram ônibus, quebraram vidros, enquanto a polícia observava... eles só queriam justiça. No Caju, um menino de 11 anos, Herinaldo era o seu nome, corria feito louco num beco porque queria brincar. Na zona sul, os justiceiros diziam, se a polícia não faz nada, nós fazemos. E lá vinha correndo Herinaldo... tinha um sorriso no rosto, aquele que vemos no rosto das crianças quando elas, brincando, esquecem do mundo. No ônibus, pessoas desesperadas pulavam pelas janelas, outras entravam. Caos. O menino vinha armado com seu sorriso, pés descalços, sem camisa, R$ 0.80 centavos no bolso... um barulho e de repente algo o parou. O policial viu Herinaldo correndo. Se assustou. Atirou. Herinaldo parou de correr, parou de sorrir e voou para o céu. Virou história. Brincando, ele esquecera do mundo. E agora o mundo se esquecerá dele tb. Mais um que podia ser e não foi. Fim.
A notícia sobre Herinaldo pode ser lida em:
Dia dos professores (OUT/2010)
Thaís Costa
Outubro/2010
É dia dos
professores... o meu terceiro dia dos professores... e tento procurar um motivo
para comemorar. Hoje fiquei sabendo que mais duas pessoas que se formaram
comigo resolveram abandonar a profissão... mais duas... menos duas...
Nas salas dos
professores das escolas onde trabalho, o assunto sempre são os alunos e como
está difícil e, muitas vezes, insuportável dar aula. Nós lidamos com alunos
mal-educados, carentes, rebeldes, drogados, com problemas psicológicos,
envolvidos na criminalidade... e todas essas especificidades juntas numa sala
de 40 alunos ou mais. Vemos pais nos cobrarem uma atitude e dizerem que não
sabem mais o que fazer com os filhos... vemos pais que não querem saber dos
filhos ou que acham que querer saber deles é sinônimo de passar a mão sobre
suas cabeças sempre que fizerem algo de errado... vemos pais cegos, que acham
que os filhos são santos e que a escola os discrimina... Vemos tantas coisas...
Vemos a crueldade e a violência de alguns alunos para com outros alunos e para
com os professores; vemos também a banalização do palavrão e do sexo em sala de
aula; vemos a vulgarização das meninas e a banditização dos meninos, que muitas
vezes nem fazem nada de errado, mas falam e têm atitudes como de bandidos,
porque estes são os seus ídolos. Vemos tanta coisa, Meu Deus! E todos os dias
nos perguntamos: o que estamos fazendo aqui? Para que tentar dar educação a
quem não a deseja, a quem vê o professor como o inimigo a ser combatido, e não
como alguém que está ali para orientá-lo? Essa guerra muitas vezes parece tão
injusta... são 40, 50 alunos contra um professor em sala de aula.
O que mudou
nos últimos anos? Na minha época de aluna não era assim... nunca fui santa, nem
uma múmia em sala de aula, mas respeitava meus professores e sempre tive prazer
em estudar. Por isso quis ser professora, porque achava que era na sala de aula
que eu poderia fazer diferença. Mas que diferença eu estou fazendo hoje se, muitas
vezes, me pego pensando: Droga! Tenho que ir dar aula para aquela turma! O que
eu posso fazer por eles se eu mesma não quero estar ali?
É claro que
nem todas as turmas me fazem sentir assim... mas são exceções, infelizmente. Há
alunos carinhosos, há alunos curiosos, há alunos com fome de saber... esses
alunos me fazem continuar, me fazem acreditar que ainda é possível mudar essa
situação, mas não posso negar que, mesmo nesses momentos, tenho me perguntado:
Será?
Enfim, aos
meus companheiros de labuta, um bom dia dos professores (ainda que atrasado),
que consigamos repensar nossa prática de modo que possamos chegar a esses
alunos que ainda nos vêem como inimigos para que, de fato, façamos alguma
diferença!
QUEM PAGA A CONTA? (SET/2010)
Thaís Costa
Setembro / 2010
Era noite. Eu estava no ponto de
ônibus em frente à UERJ. O ponto estava lotado, um menino sujo e mal-vestido
pedia dinheiro para “comer” – quem estuda ou estudou na UERJ sabe que o
verdadeiro motivo não era esse. Chega um rapazote, bem-vestido, cheirando bem,
ele fala algo para duas moças que estavam na minha frente. Não entendo o que
ele diz, mas vejo que as moças lhe dão um trocado.
Lá vem meu ônibus. A linha 457
sentido zona sul miraculosamente estava vazia. Boa parte das pessoas que
estavam no ponto entra no ônibus, inclusive o rapazote. Ouço-o dizer ao motorista que teve um problema
em casa, o gás havia estourado, e ele precisava chegar a algum lugar. Queria
carona. O motorista, irresoluto, pede que ele desça. Uma senhora que estava
atrás de mim se sensibiliza e completa a sua passagem. Ele passa pela roleta e
começa um ritual. Parece rezar. Faz o sinal da cruz várias vezes e, enfim, começa
a falar. Diz que precisa de R$ 5,60 para pagar uma passagem para São Gonçalo.
Ele queria pegar a linha São Gonçalo -Vila Isabel que passa exatamente do outro
lado da Rua São Francisco Xavier. Me pergunto o que ele faz num ônibus sentido
zona sul. Ele fala o nome de Deus algumas vezes, mostra uns papéis de igreja e
a cada trocado que recebe conta a quantia total em voz alta e diz quanto está
faltando. “R$ 4,40, diz o rapaz, falta só R$ 1,20, tenho fé em Deus que irei
conseguir. Ninguém é obrigado a me ajudar, continua ele, não quero oprimir
(sim, oprimir!!!) ninguém . Que Deus ajude
aqueles que me ajudaram e aqueles que não puderam ou não quiseram também”.
O motorista reclama. O rapaz
desce no Catumbi, não sem antes conseguir a quantia restante. Silêncio. Um
senhor de idade pergunta: “e aqui tem ônibus para São Gonçalo?”. “Isso é 171!,
responde o motorista, primeiro disse que o gás havia estourado e depois que
precisava ir para São Gonçalo. R$ 5, 00 é o preço do pó que ele quer consumir!”
Uma mocinha que havia ajudado o “drogado” (porque a esta altura já era um
drogado) se indigna, e uma discussão se inicia. Uma senhora argumenta que é
melhor ajudar um drogado para que ele possa usar sua droga em paz que deixá-lo
em crise de abstinência a ponto de fazer alguma maldade com alguém. Uma outra
mocinha diz que pior é dar o dinheiro e deixá-lo se drogar. Drogado, ele
perderia a noção das coisas e poderia fazer maldade com alguém, talvez até um
parente dela, para obter mais droga. Era uma questão de responsabilidade
social. Ouço muda a tudo isso. Mas na minha cabeça aquelas falas travam uma
verdadeira peleja.
Eu, particularmente, não gosto
de “ajudar” com dinheiro, prefiro oferecer comida, agasalho ou coisas do
gênero. Por isso, algumas vezes já fui até xingada por pedintes que só aceitam
“ajuda” se for em dinheiro. Por outro lado, conheço dois senhores de idade,
“moradores” de Ipanema, que não penso duas vezes antes de ajudar. Um deles é o
Coquinha. Coquinha dorme no ponto de ônibus da praça Gal. Osório, disse que
fugiu de casa porque sofria maus-tratos. Recebeu esse apelido porque é viciado
em refrigerante de coca. Não faz mal a ninguém. E só pede dinheiro para se
alimentar e comprar o seu santo refrigerante de todos os dias.
O outro senhor fica na R. Farme
de Amoedo. Ele ajuda as lojistas da região a abrirem as lojas em troca de café.
Antes das 7h ele já está de pé, encolhido no seu canto, carregando uma sacola,
onde devem estar todos os seus bens, e pedindo uma “ajuda” para tomar café.
Passo quase todos os dias por ele e fico a observar aquele homem, imaginando o
que aconteceu. Afinal de contas, como ele foi parar ali? Qual a sua história?
Qual a história de todos os pedintes?
Sempre tive vontade de ajudar
esse senhor, mas nunca estava com dinheiro à mão e, sempre atrasada, nunca
parei para procurar um trocado e ajudar. Hoje, o tempo estava chuvoso e frio.
Muito frio. Pela primeira vez, havia separado o dinheiro da passagem ainda em
casa e colocado no bolso. Avistei o senhor de longe. Ele tentou falar com um
rapaz, que o ignorou. Vi seu olhar de decepção. Quando passei por ele, não
hesitei, antes que abrisse a boca para dizer qualquer coisa, peguei o dinheiro
da minha passagem e lhe entreguei. O homem arregalou os olhos, parecia não
acreditar. Agradeceu algumas vezes com um sorriso sincero no rosto. Eu estava
atrasada, não parei, mas de longe fiz um sinal. Segui meu caminho sentindo-me
muito bem por ter ajudado. Mas todos esses acontecimentos me deixaram
incomodada. E nos dias que não ajudei esse senhor ou o Coquinha, o que
aconteceu? E os outros milhares de pedintes que existem no Rio de Janeiro e no
Brasil? De quem é a responsabilidade por eles? Quem pagará essa conta?
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